O Soldado Espanhol

I

O céu era azul, tão meigo e tão brando,
E a terra era a noiva que bem se arreava
Que a mente exultava, mais longe escutando
O mar a quebrar-se na praia arenosa.

O céu era azul, e na cor semelhava
Vestido sem nódoa de pura donzela;
E a terra era a noiva que bem se arreava
De flores, matizes; mas vária, mas bela.

Ela era brilhante,
Qual raio do sol;
E ele arrogante,
De sangue espanhol.

E o espanhol muito amava
A virgem mimosa e bela;
Ela amante, ele zeloso
Dos amores da donzela;
Ele tão nobre e folgando
De chamar-se escravo dela!

E ele disse: — Vês o céu? —
E ela disse: — Vejo, sim;
Mais polido que o polido
Do meu véu azul cetim. —
Torna-lhe ele... (oh! quanto é doce
Passar-se uma noite assim!)

— Por entre os vidros pintados
D’igreja antiga, a luzir
Não vês luz? — Vejo. — E não sentes
De a veres, meigo sentir?
— É doce ver entre as sombras
A luz do templo a luzir!

— E o mar, além, preguiçoso
Não vês tu em calmaria?
— É belo o mar; porém sinto,
Só de o ver, melancolia.
— Que mais o teu rosto enfeita
Que um sorriso de alegria.

— E eu também acho em ser triste
Do que alegre, mais prazer;
Sou triste, quando em ti penso,
Que só me falta morrer;
Mesmo a tua voz saudosa
Vem minha alma entristecer.

— E eu sou feliz, como agora,
Quando me falas assim;
Sou feliz quando se riem
Os lábios teus de carmim;
Quando dizes que me adoras,
Eu sinto o céu dentro em mim.

— És tu só meu Deus, meu tudo.
És tu só meu puro amar,
És tu só que o pranto podes
Dos meus olhos enxugar. —
Com ela repete o amante:
— És tu só meu puro amar! —

E o céu era azul, tão meigo e tão brando
E a terra tão erma, tão só, tão saudosa
Que a mente exultava, mais longe escutando
O mar a quebrar-se na praia arenosa!

II

E o espanhol viril, nobre e formoso,
No bandolim
Seus amores dizia mavioso,
Cantando assim:

“Já me vou por mar em fora
Daqui longe a mover guerra,
Já me vou, deixando tudo,
Meus amores, minha terra.

“Já me vou lidar em guerras,
Vou-me à índia Ocidental;
Hei de ter novos amores...
De guerras... não temas ai.

“Não chores, não, tão coitada,
Não chores por t’eu deixar;
Não chores que assim me custa
O pranto meu sofrear.

“Não chores! - sou como o Cid
Partindo para a campanha;
Não ceifarei tantos louros,
Mas terei pena tamanha.”

E a amante que assim o via
Partir-se tão desditoso,
— Vai, mas volta; lhe dizia:
Volta, sim, vitorioso.

“Como o Cid, oh! crua sorte!
Não me vou nesta campanha
Guerrear contra o crescente,
Porém sim contra os d’Espanha!

“Não me aterram; porém sinto
Cerrar-se o meu coração,
Sinto deixar-te, meu anjo,
Meu prazer, minha afeição.

“Como é doce o romper d’alva,
É-me doce o teu sorrir,
Doce e puro, qual d’estrela
De noite — o meigo luzir.

“Eram meus teus pensamentos,
Teu prazer minha alegria,
Doirada fonte d'encantos,
Fonte da minha poesia.

“Vou-me longe, e o peito levo
Rasgado de acerba dor,
Mas comigo vão teus votos,
Teus encantos, teu amor!

“Já me vou lidar em guerras,
Vou-me à índia Ocidental;
Hei de ter novos amores...
De guerras... não temas ai.”

Esta era a canção que acompanhava
No bandolim,
Tão triste, que triste não chorava
Dizendo assim.

III

“Quero, pajens, selado o ginete,
Quero em punho nebris e falcão,
Qu’é promessa de grande caçada
Fresca aurora d’amigo verão.

“Quero tudo luzindo, brilhante
Curta espada e venáb’lo e punhal,
Cães e galgos farejem diante
Leve odor de sanhudo animal.

“E ai do gamo que eu vir na coutada,
Corça, onagro, que eu primo avistar!
Que o venáb’lo nos ares voando
Lhe há de o salto no meio quebrar.

“Eia, avante! — dizia folgando
O fidalgo mancebo, loução:
— Eía, avante! — e já todos galopam
Trás do moço, soberbo infanção.

E partem, qual do arco arranca e voa
Nos amplos ares, mais veloz que a vista,
A plúmea seta da entesada corda.
Longe o eco reboa; — já mais fraco,
Mais fraco ainda, pelos ares voa.
Dos cães dúbios o latir se escuta apenas,
Dos ginetes tropel, rinchar distante
Que em lufadas o vento traz por vezes.
Já som nenhum se escuta... Quê! — latido
De cães, incerto, ao longe? Não, foi vento
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